Escrevo pela primeira vez no meu bloco de notas novo. Enquanto isso, apoio e conduzo você, minha filha, no meu peito com a outra mão. Você se alimenta e se aninha em mim. Eu sou o seu mundo neste momento. Aqui, estou diminuída de mim e, ao mesmo tempo, sinto-me maior. Sou potente - me pego pensando. Você me olha e pega o meu cabelo. Isso é enorme. Olho no espelho na nossa frente. Pele e olhar denunciam as nossas noites e os nossos dias. Penso em como me olhei no espelho pela manhã. Percebi que minhas roupas serviriam de novo. Pensei em tantos corpos que tive em tão pouco tempo e o quanto é difícil identificar-me.
De repente, paro de escrever e tudo o que é meu se volta pra você por se avermelhar e se contorcer. Não consigo acreditar que não doa. Afinal, é a pior dor que já senti. Mas passa. E eu sempre falo (pra você e pra mim) "vai passar, meu amor".
Nos percebo sozinhas e já está escuro. Seu pai não está. A vida dele segue e se expande lá fora. A minha vida habita nos meus braços e se acalma com o meu cheiro. Isso é tão especial que tenho medo de me entregar excessivamente, ao tempo desejo voltar à minha vida lá fora também. Constato que nada mais exerce o mesmo sentido, apesar de ainda significar muito, e só tenho a certeza de que o mundo parece completo quando você sorri ao adormecer.
No meu colo, agora, você dorme satisfeita e segura. E eu sinto um sabor distinto.
Ainda bem que sempre gostei do agridoce.
11/12/2015